
É desde o primeiro dia de vida que começamos a aprender a comunicar, a falar, a ler e a escrever.
- Jack Shonkoff e Deborah Phillips
A dislexia é uma dificuldade específica na forma como o cérebro processa a informação fonológica — ou seja, a forma como identificamos, articulamos e usamos os sons da língua.
Em palavras simples: quando ouvimos falar de dislexia, pensamos logo em dificuldades na leitura, na escrita, na ortografia ou até na matemática. Pensamos nas trocas de letras, nas palavras escritas de forma diferente, nos erros que parecem teimosos.
E sim, a dislexia é tudo isso… mas é muito mais.
A leitura e a escrita são apenas a face visível da linguagem. Antes de ler e escrever, é preciso ouvir, compreender e organizar sons, palavras e frases.
É por isso que o desenvolvimento da linguagem começa desde o nascimento — quando o bebé escuta, imita sons e começa a construir o seu sistema linguístico.
Muitas vezes, a dislexia só é identificada em idade escolar, quando a leitura e a escrita passam a ser exigidas de forma mais complexa (por volta do 3.º e 4.º ano).
Mas os sinais precoces estão lá muito antes — e se forem reconhecidos, a intervenção pode mudar tudo.
Sinais de alerta:
Uma criança que diz “figorífico”, “friborítico” ou “frigotítico” está a tentar, mas o seu sistema fonológico ainda não está consolidado. Nesses casos, pais e educadores podem modelar a palavra, repetir por sílabas, e ajudar a criança a ouvir e articular corretamente — porque ouvir bem é o primeiro passo para ler bem.
O papel da literacia emergente
A literacia começa muito antes da leitura formal. Aos 4 e 5 anos, as crianças constroem as bases ao brincar com sons, livros e palavras.
Ambientes ricos em livros, revistas, histórias, música, dramatizações e conversas estimulam o sistema fonológico e a memória auditiva, preparando o cérebro para aprender a ler e escrever.
Intervir cedo faz a diferença
Ignorar os sinais pode levar ao sofrimento emocional e ao insucesso escolar.
Muitos pais, por medo ou negação, atrasam o pedido de ajuda — e acabam por perder janelas de oportunidade preciosas para desenvolver o potencial da criança.
Sinais de alerta no 1.º ciclo:
- Dificuldade em memorizar o nome e o som das letras
- Leitura muito lenta, com trocas ou omissões
- Leitura rápida, mas sem compreensão
- Escrita sem coerência ou cheia de erros persistentes
- Dificuldade em perceber o que lê
- Problemas em compreender o sentido figurado ou metáforas
Mas há também o outro lado. O cérebro disléxico funciona de forma diferente — e isso traz enorme potencial criativo.
São crianças curiosas, visuais, intuitivas e com pensamento fora da caixa.
Usar essas forças naturais é a chave para estimular o que está em dificuldade e transformar a aprendizagem numa experiência positiva.
Prevenir é sempre melhor do que remediar. Acompanhar, observar e intervir cedo é o caminho para um desenvolvimento linguístico saudável e uma aprendizagem feliz.
Diana Moreira
Terapeuta da Fala – Especialização em Neuropsicologia Pediátrica
Membro da Equipa EMAEI do Colégio do Forte
Clínica Alta…mente – desenvolvimento infantil & parentalidade







